segunda-feira, 14 de setembro de 2026



 Breve história do Movimento Negro Brasileiro

Alessandro Macedo

O Brasil apresenta a maior população de afrodescendentes da América Latina, fato que contribuiu para a formação do movimento negro brasileiro. Outrora, o movimento negro brasileiro já se apresentava de forma vasta e contava com inúmeras organizações mobilizadoras. Atualmente, ainda se observa a existência de um número significativo de organizações e militantes, contudo, este não se compara com o número de organizações que surgiram e desapareceram até à primeira metade do século XX.

            O movimento negro brasileiro tem as suas origens no final do século XIX e início do século XX. No Brasil, o trabalho escravo foi abolido em 1888, o que marcou o florescimento do grupo social dos negros, sendo que as primeiras organizações de negros começaram a emergir a partir de 1920. Todavia, não se pode inferir que já se tenha desenvolvido uma consciência coletiva em torno da questão racial. A população de afrodescendentes, outrora subjugados pela escravidão, ainda não assimilara a nova realidade em que se encontrava inserida. De fato, a abolição da escravatura não implicou a emancipação total dos negros, que continuaram a ser submetidos a trabalhos forçados nas plantações, engenhos e casas. Ademais, não lhes foram conferidos recursos ou bens materiais que lhes permitissem desenvolver-se autonomamente e em pé de igualdade com os demais grupos sociais. Desta forma, os indivíduos negros permaneceram dependentes dos seus anteriores proprietários, enfrentando os mesmos flagelos dos tempos de cativeiro e envolvendo-se em conflitos ferozes pela sua sobrevivência, tanto na cidade como no campo.[1]

            A década de 1930 foi um período notável, tanto no contexto nacional como internacional. No plano internacional, os mercados de capitais encontravam-se submersos numa recessão sem paralelo, denominada Crise de 1929. Este fenômeno econômico, originado nos Estados Unidos, propagou-se por todo o mundo, resultando na falência de numerosos Estados dependentes do capital internacional. O Brasil, como uma economia dependente de importações, não ficou imune a este cenário. A nível nacional, o país iniciou a implementação de uma economia de mercado, um tipo de Estado liberal-oligárquico, a formação de uma burguesia nacional e a substituição de uma economia agraria-exportadora por uma economia de mercado baseada na industrialização. Em suma, observou-se o desenvolvimento de uma sociedade capitalista, embora com particularidades inerentes à divisão internacional do trabalho, resultando num tipo de capitalismo subordinado.  

O movimento negro brasileiro emergiu em 1930, neste contexto de crise e elevadas taxas de desemprego, enquanto na Europa se delineavam os regimes totalitários do fascismo e do nazismo. A organização que mais se destacou foi a Frente Negra Brasileira. Embora existissem outros coletivos, foi esta organização que hegemonicamente assumiu a luta contra o racismo em São Paulo, tendo aberto filiais em diversas cidades brasileiras e no interior paulista. Esta organização foi objeto de muitas controvérsias, sendo uma expressão da tendência conservadora do movimento negro brasileiro, Macedo (2023). Outro elemento significativo que caracterizou o movimento negro nesse primeiro momento foi a chamada imprensa negra, sobretudo no estado de São Paulo. Nesse contexto, para além do surgimento de inúmeros coletivos e organizações que procuravam solucionar questões pertinentes à população afrodescendente, também emergiram vários jornais que denunciavam as condições de vida da população negra, promovendo a divulgação de eventos culturais e afirmando as características étnicas dos indivíduos negros.

            Após o período da ditadura do Estado Novo (1937-1945), durante o qual diversas organizações dos movimentos sociais foram suprimidas, as organizações do movimento negro continuaram a desenvolver-se em diversos estados brasileiros, destacando-se a União dos Homens de Cor – UHC, no Rio Grande do Sul, e o Teatro Experimental Negro - TEN, no Rio de Janeiro, idealizado e fundado por Abdias do Nascimento. Esta organização do movimento negro focava-se na questão cultural, atuando como um grupo de teatro que encenava peças relacionadas com a temática negra, ou seja, o racismo e a discriminação racial. Ademais, procurava combater os estereótipos associados às pessoas negras, frequentemente retratadas em peças e novelas brasileiras. No período compreendido entre 1930 e 1960, observou-se o surgimento e a dissolução de dezenas de coletivos e organizações do movimento negro brasileiro. Além de que, a forma como a sociedade se relacionava com os ex-escravos e seus descendentes permanecia quase inalterada. As organizações não conseguiram avançar no sentido de propor um projeto político próprio, nem unificar essa legião de militantes em torno de um objetivo comum.

            A única organização que apresentou um projeto e trabalhou por uma proposta de resolução da questão racial na sociedade brasileira foi a Frente Negra Brasileira-FNB. No entanto, esta organização foi dissolvida em 1937, tendo em conta que a sua proposta de resolução da opressão da raça negra consistia na implementação de um Estado totalitário presidido por uma monarquia católica, com um rei e ministros a exercerem o poder.

            A partir da implementação do regime ditatorial no Brasil no início da década de 1960, os movimentos sociais, em particular o movimento negro, sofreram uma forte repressão, resultando na sua dissolução ou migração para a militância clandestina. Esta mudança representou um grande desafio, pois, segundo a mentalidade da época, inspirada na ideologia da democracia racial Freyre (2003), não existia racismo no país, nem conflitos raciais. Desta forma, a insistência na discussão poderia ser interpretada como um desafio à ordem totalitária vigente.  

Contudo, mesmo perante a repressão brutal exercida pelas forças armadas contra a classe trabalhadora e os movimentos de resistência, incluindo a União Nacional dos Estudantes (UNE), o grupo social dos negros, impulsionados sobretudo por revolta e indignação, viu-se na necessidade de se mobilizar em resposta ao sequestro, tortura e morte de um jovem trabalhador negro pelas forças repressivas da ditadura na cidade de São Paulo em 1978, bem como noutros episódios de discriminação racial. Em oposição à opressão vigente e à proibição de quaisquer manifestações de protesto social, um coletivo de 2000 indivíduos negros concentrou-se no centro da cidade de São Paulo, estabelecendo a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU).

Esta organização assinalou o início de uma nova era para o movimento negro brasileiro. Nesta nova fase, que pode ser delimitada entre 1980 e 1995, o movimento negro brasileiro desenvolveu novas dinâmicas e estratégias de ação coletiva. A orientação reprodutivista das estruturas estatais foi abandonada, dando-se um envolvimento em mobilizações massivas de enfrentamento direto. Do ponto de vista militante, este período pode ser considerado de radicalização e avanço no entendimento e enfrentamento do racismo. A abordagem do tema a partir das estruturas de classes da sociedade capitalista gerou uma percepção de que o racismo, assim como a discriminação racial, é um fenômeno que não diz respeito apenas à raça, mas também à classe, ou seja, às estruturas sociais do capitalismo.

Em suma, a partir de 1995, com a realização da Marcha Zumbi em Brasília, o movimento negro brasileiro dá início à sua fase de institucionalização das suas organizações e estabelece uma nova relação com o Estado, Domingues (2007). Neste sentido, ocorreu uma reconfiguração na sua forma organizacional, com a maior das suas organizações, o MNU, a abandonar a prática de manifestações e protestos públicos, optando por envolver-se na luta institucional pela construção de uma agenda orientada para a implementação de ações afirmativas e identitárias.

Em 2003, o movimento negro alcançou um avanço significativo no âmbito da luta institucional. A criação e ratificação da Lei de Cotas para estudantes negros no Ensino Superior brasileiro é considerada um marco na luta por inclusão e reconhecimento. Posteriormente, foi instituída a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). Esta instituição teve como objetivo combater o racismo e a desigualdade, através da criação de leis e regulamentos. Nesse sentido, em julho de 2010, foi promulgado o Estatuto da Igualdade Racial, que teve um impacto limitado ou nulo, uma vez que o racismo e a desigualdade persistem em avançar de forma contundente, ignorando inserções legislativas.

Após o processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 e a subsequente implementação de um neoliberalismo discricionário sob o governo de Michel Temer, muitas das políticas criadas por esta secretaria foram esvaziadas, ocorrendo, concomitantemente, a dissolução da SEPPIR. O aprofundamento das lutas institucionais através de políticas públicas enfrentou barreiras significativas com a emergência do governo de Jair Bolsonaro. Os primeiros sinais são manifestos. Verifica-se um aumento substancial da violência policial contra a população afrodescendente, bem como um extermínio sistemático da juventude negra e pobre.

O aparelhamento do Centro Cultural Palmares, sob a gestão de um negro com inclinações racistas, que negava a existência deste fenômeno no Brasil, visava esvaziar e silenciar esta instituição de reconhecimento e promoção da cultura negra. Atualmente, o movimento negro brasileiro encontra-se fragmentado em distintas organizações, ONGs e um ministério do Governo Federal: o Ministério da Igualdade Racial-MIR. Consequentemente, mobilizados em torno de temáticas subjetivistas, tais como gênero e identidade, neoindividualismo, empreendedorismo, isto é, um conjunto de idelogias neoliberais expressão do microreformismo e do ativismo profissional, não se observando uma reivindicação unificada que congregue esta diversidade de organizações sob um propósito comum no que diz respeito à questão racial.




[1]“A sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de se reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criados pelo advento do trabalho livre, do regime republicano e do capitalismo”. Fernandes, Florestan. A introdução do negro na sociedade de classes. Vol. I. São Paulo: Ática, 1978, p. 20.

Referencias 

Albuquerque, Wlamyra R de e Filho, Walter F. Uma história do negro no Brasil. Brasília: Fundação Palmares, 2006.  

Callinicos, Alex. Capitalismo e Racismo. Disponível em: http://socialista.tripo.com.  

Domingues, Petrônio. Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos. Revista Tempo (UFF), Volume. 23. 2007b.

Fernandes, Florestan. A introdução do negro na sociedade de classes. Vol. I. São Paulo: Ática, 1978.

Macedo, Alessandro. Frente Negra Brasileira: história, organização e objetivos. Goiânia: Editora Redelp, 2023. 

Oliveira, Laiana. A frente negra brasileira: política e questão racial nos anos 1930. Disponível em: <http://livros01.livrosgratis.com.br/cp000139>.  

Saes, Décio. A formação do Estado burguês no Brasil (1888-1891). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. (coleção estudos brasileiros, v. 86).


segunda-feira, 27 de junho de 2022


 

A consciência em Marx

Alessandro Macedo*

A questão da consciência é uma das temáticas mais complexas dentro da teoria marxista. A ação de detratores e epígonos da obra de Marx, (LENIN, 1978; PLEKHANOV, 1990; STALIN, 1982; etc.), imprimiu nesse conceito um caráter abstrato e metafísico, sendo muitas vezes confundido com teoria do conhecimento. A imposição de elementos da ideologia positivista do conhecimento, tal como conhecemos, sujeito, objeto, empírico, “sujeito cognoscível”, “objeto cognoscente”, dentre outros termos problemáticos, mostra a necessidade de expressarmos uma consciência correta da teoria da consciência tal como desenvolvida por Marx.

A questão da consciência aparece em vários pontos em sua obra, no entanto, os textos intitulados Manuscritos econômicos-filosóficos (2004 [1844]), marcam sua ruptura com a filosofia hegeliana e, portanto, são expressão de uma consciência teórica livre dos embaraços abstratos e metafísicos herdados de Hegel. Embora a questão da consciência já aparecesse nesses textos, foi somente a partir de A ideologia alemã (2009[1846]), obra conjunta com seu amigo e colaborador Friedrich Engels, que ele apresenta sua teoria da consciência derivada de uma concepção materialista da história. Assim, ao analisar o ser humano a partir de suas relações sociais, ou seja, o processo de vida real que o indivíduo contrai para produzir sua vida material, ele também produz sua forma de ver e entender o mundo em sua volta, ou seja, sua consciência. Dessa forma, buscaremos refletir como os indivíduos, determinados social e historicamente, desenvolvem sua consciência a partir de seu processo de vida real.

A relação entre ser e consciência

A tese apresentada por Marx de que, ”a consciência é nada mais que o ser consciente” (MARX e ENGELS, 2009, p. 31) nos remete a uma outra questão. O que constitui esse ser consciente? Sabemos que os seres humanos, diferentemente dos outros animais, não encontram na natureza os meios acabados para sua sobrevivência. Desse modo, estão em plena desvantagem em relação aos demais animais, primeiramente pela sua constituição corpórea e sua força física, ou seja, o ser humano é um animal frágil perante as forças naturais. Nesse sentido, ele precisa desenvolver meios de intervir na natureza, no sentido de garantir sua própria sobrevivência.

Assim, ao desenvolver formas inteligentes de intervenção para compensar sua desvantagem física, isso o coloca de maneira vantajosa frente aos demais animais, uma vez que nesse processo ele se autocria, humanizando a natureza e, consequentemente, a si mesmo. O meio pelo qual ele realiza essa intervenção é o trabalho. Porém, não se trata do trabalho tal como desenvolvido no modo de produção capitalista. O capital, ao se apropriar do trabalho, o transformou em uma atividade alienada e degradante, trazendo sofrimento e alienação para o trabalhador, (MARX, 2004). O trabalho ao qual Marx se refere como constituinte da natureza humana é um trabalho que edifica o ser humano, uma vez que ele se reconhece em sua atividade, tendo em vista que ele tem total domínio sobre o processo produtivo, ao mesmo tempo em que tem acesso ao produto por ele criado.

Portanto, para Marx e Engels (2009, p. 24) “A premissa de toda história humana é, naturalmente a existência de seres humanos vivos”. Isso significa que o ser humano é um ser social e biológico, e que, portanto, precisa satisfazer um conjunto de necessidades biológicas consideradas fundamentais, sem as quais, ele não pode subsistir como ser humano. Entretanto, o ato de produzir esses meios necessários à sua sobrevivência constitui-se na verdade, como sendo a produção de sua própria história, ou seja, o mundo humano, e a consciência que se tem dele, assim:

O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios para satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e a verdade é que esse é um ato histórico, uma condição fundamental de toda história, que ainda hoje, tal como milhares de anos, tem de ser realizado dia a dia, hora a hora, para ao menos manter os homens vivos. (MARX; ENGELS, 2009, p. 40).

Desse modo, podemos compreender que a natureza do ser humano é constituída social e historicamente e que o trabalho é a categoria central na constituição do seu ser social. Logo sua consciência emana do seu processo de vida real.

No entanto, essa consciência a princípio é a consciência do próprio meio natural que o cerca, que constitui a realidade concreta do qual ele faz parte, juntamente com outros animais.

A consciência, naturalmente, começa por ser apenas consciência acerca do ambiente sensível mais imediato e consciência de conexão limitada com outras pessoas e coisas fora do indivíduo que se vai tornando consciente de si; é, ao mesmo tempo consciência da natureza, a qual em princípios se opõem aos homens como poder completamente alienado, todo-poderoso e inatacável com o qual os homens se relacionam de um modo puramente animal e pelo qual deixam amedrontar como animais ; é, portanto, uma consciência puramente animal da natureza (religião natural) (MARX; ENGELS, 2009, p. 44).

Portanto, isso não significa que em um determinado período da história humana a consciência deixou de ser social, porém significa que o desenvolvimento da consciência se dá a partir do desenvolvimento de relações sociais que o indivíduo contrai juntamente com outros indivíduos em determinado período histórico, marcado por uma determinada fase social, no sentido de produzir sua vida material.

Assim, Marx faz uma conexão direta entre o processo de vida real dos indivíduos e as representações que esses indivíduos fazem dessa mesma realidade. Nesse sentido, tais representações são expressões do condicionamento feito pela sua posição na divisão social trabalho, ou seja, a forma como o indivíduo se insere na produção de sua vida material e pelas estruturas políticas e jurídicas vigentes em um dado período histórico.

Dessa forma, “a produção das ideias, das representações, da consciência está em princípio diretamente entrelaçada com atividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagens da vida real” (MARX; ENGELS, 2009, p.30). Isso significa que todas as criações sociais tais como, política, religião, filosofia, ciência, estado, etc., ou seja, o conjunto das representações sociais, são produtos das relações sociais reais, desenvolvidas por seres humanos reais de carne e ossos. Essas categorias não possuem nenhuma autonomia fora da realidade social, são criações humanas e correspondem a determinado estágio de desenvolvimento da produção e das forças produtivas, mediadas por valores e interesses de seres humanos reais determinados social e historicamente (Marx; Engels, 2009).

Nesse sentido, a consciência realmente pode ser o ser consciente, mesmo que tal consciência seja uma consciência deformada, não deixa de ser expressão real da contradição da qual ela emerge. Isso também demonstra que “ser e consciência” são indivisíveis, toda consciência que o indivíduo tem do mundo e dele mesmo é produto das relações sociais reais, seu processo de vida, sua posição na divisão social do trabalho, sua classe social etc. Verifica-se então a impossibilidade de a consciência ser uma aquisição externa dos indivíduos, ou produto do mundo das idealizações tal como em Hegel, ou de abstrações metafísicas postuladas pelos teóricos do conhecimento (LOCKE,1999; HESSEN, 1980). No entanto, Marx chama a atenção para as formas de consciência e suas possibilidades a partir do desenvolvimento da divisão social do trabalho e da evolução do modo de produção.

Efetivamente, a partir do momento que surge a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, as ideias tendem a ganhar autonomia, como se elas não fossem produtos das mentes de seres humanos reais. Assim, essa inversão da realidade pode expressar algo sem realmente ser expressão do que representa. Surge então a ideologia (MARX; ENGELS, 2009). A ideologia se caracteriza por ser uma forma de consciência ilusória que visa inverter a realidade e pode aparecer em forma de filosofia, teologia, ciência, etc. Assim, surge o especialista no trabalho intelectual, ou seja, o ideólogo, produtor de ideologia. Mas se a consciência é o ser consciente, ou seja, é uma unidade indissolúvel, o que leva determinados seres humanos a expressar uma consciência que não seja expressão correta da sua realidade. Portanto:

(...) é evidente que, em todos esses casos, essas representações são a expressão consciente – real ou ilusória – das suas relações e atividades reais, da sua produção, do seu intercâmbio, da sua organização social e política. A suposição oposta só é possível quando se pressupõe, além do espírito dos indivíduos reais e materialmente condicionados, ainda um espírito a parte. Se a expressão consciente das relações reais desses indivíduos é ilusória, eles nas suas representações, colocam a realidade de cabeça para baixo, e isso, por sua vez, é uma consequência do seu modo de trabalho material limitado a das relações sociais limitadas que deles resultam. (MARX; ENGELS, 2009, p. 30).

Outro elemento de fundamental importância na teoria marxista, que remete a questão da consciência, é a questão das classes sociais.

A sociedade dividida em classes sociais distintas e marcada pelo antagonismo entre as classes sociais fundamentais (burguesia e proletariado, no caso do capitalismo), pressupõe a coexistência de valores, interesses, concepções antagônicas. Marx e Engels, ao tratar da questão das classes sociais, deixaram claro que a classe detentora dos meios de produção em um determinado período histórico também detêm o domínio da produção da vida espiritual, ou seja, das formas de consciência. Em outros termos equivaleria dizer que “as ideias dominantes são as ideias da classe dominante” (MARX; ENGELS, 2009, p. 67). Isso significa que se os indivíduos fazem representações equivocadas e ilusórias da sua realidade, do seu ser no mundo, é porque os mesmos estão inseridos em relações sociais contraditórias, instauradas pela divisão social do trabalho, pela divisão da sociedade em classes, pela instituição da propriedade privada dos meios de produção, o que possibilita a dominação de uma classe por outra.

Desse modo, devido à hegemonia das ideias da classe dominante e suas formas ilusórias de consciência, os indivíduos tendem a reproduzir uma consciência falsificada da realidade da qual eles fazem parte. Isso ocorre porque não é do interesse da classe dominante mostrar a verdade por trás das relações sociais de produção, que no capitalismo são relações de exploração. No entanto, os intelectuais representantes da classe dominante, vão “construir sistemas filosóficos, amplas doutrinas políticas, concepções científicas e teológicas, em alto grau de complexidade” (VIANA, 2017, p.149), para omitir os reais interesses da burguesia, ao mesmo tempo em que apresentam um conjunto de valores como sendo oriundos da vontade geral.

Assim, podemos compreender que a ideologia é uma forma de consciência ilusória. No entanto, não se trata de uma falsificação qualquer, ou seja, a criação de ideologias por parte dos ideólogos, não é algo que brota do nada, a ideologia também possui uma base real, que é a consciência dos próprios ideólogos. Ou seja, os ideólogos, ao produzirem ideologias, também partem de seu processo de vida real, valores, sentimentos, concepções, classe social, etc. Nesse sentido, o caráter ilusório da ideologia é apenas uma de suas características, sendo que ela também é uma forma de consciência. Porém é uma consciência falsa, que visa inverter a realidade, sustentada por sistemas complexos de pensamentos, produzida por intelectuais especializados no trabalho intelectual.

Nesse sentido, os ideólogos, procuram se autonomizar da realidade, como se fossem apenas representantes de ideias e concepções teológicas, científicas e filosóficas, que existem independente da vontade dos indivíduos, tal como leis universais, Deus e outras especulações metafísicas.

Entretanto, retomando a tese inicial de que a consciência é nada mais que o ser consciente, ou seja, que a consciência é expressão do processo de vida real do indivíduo, significa entender que a formação da consciência pessoal é produto das relações reais que esse indivíduo contrai e reproduz socialmente. No entanto, as formas de consciência social são produtos de relações sociais mais amplas, que abarcam o conjunto da sociedade. Marx deixou isso bem claro em uma célebre passagem do prefácio da contribuição da crítica da economia política:

O resultado geral a que cheguei é que uma vez obtido, serviu-me de guia para meus estudos pode ser formulado, resumidamente assim: na produção social da própria existência, os homens entram em relações sociais determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica, política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é consciência dos homens que determina seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. (MARX, 2009, p. 49).

Portanto, aqui Marx afirma que a consciência é um produto social, que é condicionada pelo modo de produção da vida material. No entanto, essa mesma passagem, aponta para a possibilidade de uma consciência correta da realidade. Mas como chegar a uma consciência correta da realidade, se os sistemas de conhecimentos dominantes na verdade, não passam de formas ilusórias que visam falsificar a realidade? A teoria da consciência de Marx nos remete a sua teoria da história, ou seja, ao materialismo histórico e ao método dialético. O método dialético, como recurso heurístico, possibilita compreender a realidade em sua totalidade, ou seja, a síntese de múltiplas determinações históricas e sociais, e com isso chegar uma consciência correta da realidade (VIANA, 2017).

Entretanto, partir do método dialético, para entender a realidade histórica e social, significa partir da perspectiva de uma classe social que, neste caso, é o proletariado, pois a classe proletária é a única classe social a quem interessa uma consciência correta da realidade. Ademais, partir da perspectiva do proletariado, significa partir de valores, sentimentos, posições, interesses, inerentes a realidade dessa classe, ou seja, o processo de vida real da classe proletária. O processo de vida real do proletariado remete ao modo de produção capitalista, bem como sua superação. Isso significa o fim das ilusões e da falsa consciência.


Referências

FROMM, Erich. O conceito marxista do homem. Rio De Janeiro: Zahar, 1976. 

HESSEN, J. Teoria do conhecimento. Coimbra: Armênio Amado, 1980.


KORSCH, Karl. Marxismo e filosofia. Porto: Afrontamento, 1977. KOSIK, 


Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. 


LÊNIN, W. Que fazer? São Paulo: Hucitec, 1978.


LOCKE, John. Ensaios acerca do entendimento humano. São Paulo: Nova Cultural, 1999. 


MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Expressão popular, 2009. 


MARX, Karl. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Boitempo, 2005.


MARX, Karl. Manuscritos econômicos-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.


MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão popular, 2009.

PLEKNAHOV, Georg. Princípios Fundamentais do Marxismo. São Paulo: Global, 1990. 


STÁLIN, Joseph. Materialismo Dialético e Materialismo Histórico. São Paulo: Global, 


1982. VIANA, Nildo. Karl Marx: a crítica desapiedada do existente. Curitiba-PR: Prismas, 2017.

VIANA, Nildo. A consciência da história: ensaios sobre o materialismo histórico-dialético.

Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.

* Alessandro Macedo é doutorando em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília-UNB.