Breve história do Movimento Negro Brasileiro
Alessandro Macedo
O movimento negro
brasileiro tem as suas origens no final do século XIX e início do século XX. No
Brasil, o trabalho escravo foi abolido em 1888, o que marcou o florescimento do
grupo social dos negros, sendo que as primeiras organizações de negros
começaram a emergir a partir de 1920. Todavia, não se pode inferir que já se
tenha desenvolvido uma consciência coletiva em torno da questão racial. A
população de afrodescendentes, outrora subjugados pela escravidão, ainda não
assimilara a nova realidade em que se encontrava inserida. De fato, a abolição
da escravatura não implicou a emancipação total dos negros, que continuaram a
ser submetidos a trabalhos forçados nas plantações, engenhos e casas. Ademais,
não lhes foram conferidos recursos ou bens materiais que lhes permitissem
desenvolver-se autonomamente e em pé de igualdade com os demais grupos sociais.
Desta forma, os indivíduos negros permaneceram dependentes dos seus anteriores
proprietários, enfrentando os mesmos flagelos dos tempos de cativeiro e
envolvendo-se em conflitos ferozes pela sua sobrevivência, tanto na cidade como
no campo.[1]
A década de 1930 foi um
período notável, tanto no contexto nacional como internacional. No plano
internacional, os mercados de capitais encontravam-se submersos numa recessão
sem paralelo, denominada Crise de 1929. Este fenômeno econômico, originado nos
Estados Unidos, propagou-se por todo o mundo, resultando na falência de numerosos
Estados dependentes do capital internacional. O Brasil, como uma economia
dependente de importações, não ficou imune a este cenário. A nível nacional, o
país iniciou a implementação de uma economia de mercado, um tipo de Estado
liberal-oligárquico, a formação de uma burguesia nacional e a substituição de
uma economia agraria-exportadora por uma economia de mercado baseada na
industrialização. Em suma, observou-se o desenvolvimento de uma sociedade
capitalista, embora com particularidades inerentes à divisão internacional do
trabalho, resultando num tipo de capitalismo subordinado.
O movimento negro brasileiro emergiu em 1930,
neste contexto de crise e elevadas taxas de desemprego, enquanto na Europa se
delineavam os regimes totalitários do fascismo e do nazismo. A organização que
mais se destacou foi a Frente Negra Brasileira. Embora existissem outros
coletivos, foi esta organização que hegemonicamente assumiu a luta contra o
racismo em São Paulo, tendo aberto filiais em diversas cidades brasileiras e no
interior paulista. Esta organização foi objeto de muitas controvérsias, sendo
uma expressão da tendência conservadora do movimento negro brasileiro, Macedo
(2023). Outro elemento significativo que caracterizou o movimento negro nesse
primeiro momento foi a chamada imprensa negra, sobretudo no estado de São
Paulo. Nesse contexto, para além do surgimento de inúmeros coletivos e
organizações que procuravam solucionar questões pertinentes à população
afrodescendente, também emergiram vários jornais que denunciavam as condições
de vida da população negra, promovendo a divulgação de eventos culturais e
afirmando as características étnicas dos indivíduos negros.
Após
o período da ditadura do Estado Novo (1937-1945), durante o qual diversas organizações
dos movimentos sociais foram suprimidas, as organizações do movimento negro
continuaram a desenvolver-se em diversos estados brasileiros, destacando-se a
União dos Homens de Cor – UHC, no Rio Grande do Sul, e o Teatro Experimental
Negro - TEN, no Rio de Janeiro, idealizado e fundado por Abdias do Nascimento.
Esta organização do movimento negro focava-se na questão cultural, atuando como
um grupo de teatro que encenava peças relacionadas com a temática negra, ou
seja, o racismo e a discriminação racial. Ademais, procurava combater os
estereótipos associados às pessoas negras, frequentemente retratadas em peças e
novelas brasileiras. No período compreendido entre 1930 e 1960, observou-se o
surgimento e a dissolução de dezenas de coletivos e organizações do movimento
negro brasileiro. Além de que, a forma como a sociedade se relacionava com os
ex-escravos e seus descendentes permanecia quase inalterada. As organizações
não conseguiram avançar no sentido de propor um projeto político próprio, nem
unificar essa legião de militantes em torno de um objetivo comum.
A única organização que
apresentou um projeto e trabalhou por uma proposta de resolução da questão
racial na sociedade brasileira foi a Frente Negra Brasileira-FNB. No entanto,
esta organização foi dissolvida em 1937, tendo em conta que a sua proposta de
resolução da opressão da raça negra consistia na implementação de um Estado
totalitário presidido por uma monarquia católica, com um rei e ministros a
exercerem o poder.
A partir da implementação
do regime ditatorial no Brasil no início da década de 1960, os movimentos
sociais, em particular o movimento negro, sofreram uma forte repressão,
resultando na sua dissolução ou migração para a militância clandestina. Esta
mudança representou um grande desafio, pois, segundo a mentalidade da época,
inspirada na ideologia da democracia racial Freyre (2003), não existia racismo no país, nem
conflitos raciais. Desta forma, a insistência na discussão poderia ser
interpretada como um desafio à ordem totalitária vigente.
Contudo, mesmo perante a repressão brutal exercida pelas forças armadas contra a classe trabalhadora e os movimentos de resistência, incluindo a União Nacional dos Estudantes (UNE), o grupo social dos negros, impulsionados sobretudo por revolta e indignação, viu-se na necessidade de se mobilizar em resposta ao sequestro, tortura e morte de um jovem trabalhador negro pelas forças repressivas da ditadura na cidade de São Paulo em 1978, bem como noutros episódios de discriminação racial. Em oposição à opressão vigente e à proibição de quaisquer manifestações de protesto social, um coletivo de 2000 indivíduos negros concentrou-se no centro da cidade de São Paulo, estabelecendo a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU).
Esta organização assinalou o início de uma
nova era para o movimento negro brasileiro. Nesta nova fase, que pode ser
delimitada entre 1980 e 1995, o movimento negro brasileiro desenvolveu novas
dinâmicas e estratégias de ação coletiva. A orientação reprodutivista das estruturas
estatais foi abandonada, dando-se um envolvimento em mobilizações massivas de
enfrentamento direto. Do ponto de vista militante, este período pode ser
considerado de radicalização e avanço no entendimento e enfrentamento do
racismo. A abordagem do tema a partir das estruturas de classes da sociedade
capitalista gerou uma percepção de que o racismo, assim como a discriminação
racial, é um fenômeno que não diz respeito apenas à raça, mas também à classe,
ou seja, às estruturas sociais do capitalismo.
Em suma, a partir de 1995, com a realização
da Marcha Zumbi em Brasília, o movimento negro brasileiro dá início à sua fase
de institucionalização das suas organizações e estabelece uma nova relação com
o Estado, Domingues
(2007). Neste sentido, ocorreu
uma reconfiguração na sua forma organizacional, com a maior das suas
organizações, o MNU, a abandonar a prática de manifestações e protestos
públicos, optando por envolver-se na luta institucional pela construção de uma
agenda orientada para a implementação de ações afirmativas e identitárias.
Em 2003, o movimento
negro alcançou um avanço significativo no âmbito da luta institucional. A
criação e ratificação da Lei de Cotas para estudantes negros no Ensino Superior
brasileiro é considerada um marco na luta por inclusão e reconhecimento. Posteriormente,
foi instituída a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
(SEPPIR). Esta instituição teve como objetivo combater o racismo e a
desigualdade, através da criação de leis e regulamentos. Nesse sentido, em
julho de 2010, foi promulgado o Estatuto da Igualdade Racial, que teve um
impacto limitado ou nulo, uma vez que o racismo e a desigualdade persistem em
avançar de forma contundente, ignorando inserções legislativas.
Após o processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 e a subsequente implementação de um neoliberalismo discricionário sob o governo de Michel Temer, muitas das políticas criadas por esta secretaria foram esvaziadas, ocorrendo, concomitantemente, a dissolução da SEPPIR. O aprofundamento das lutas institucionais através de políticas públicas enfrentou barreiras significativas com a emergência do governo de Jair Bolsonaro. Os primeiros sinais são manifestos. Verifica-se um aumento substancial da violência policial contra a população afrodescendente, bem como um extermínio sistemático da juventude negra e pobre.
[1]“A sociedade brasileira
largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a
responsabilidade de se reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos
novos padrões e ideais de homem, criados pelo advento do trabalho livre, do
regime republicano e do capitalismo”. Fernandes,
Florestan. A introdução do negro na sociedade de classes. Vol. I. São
Paulo: Ática, 1978, p. 20.
Referencias
Albuquerque, Wlamyra R de e Filho, Walter F. Uma história do negro no Brasil.
Brasília: Fundação Palmares, 2006.
Callinicos, Alex. Capitalismo
e Racismo. Disponível em: http://socialista.tripo.com.
Domingues,
Petrônio. Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos. Revista
Tempo (UFF), Volume. 23. 2007b.
Fernandes, Florestan. A introdução do negro na sociedade de classes. Vol. I. São Paulo: Ática, 1978.
Macedo, Alessandro. Frente Negra Brasileira: história, organização e objetivos. Goiânia: Editora Redelp, 2023.
Oliveira, Laiana. A frente negra brasileira: política e questão racial nos anos 1930. Disponível em: <http://livros01.livrosgratis.com.br/cp000139>.
Saes,
Décio. A formação do Estado burguês no Brasil (1888-1891). Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1985. (coleção estudos brasileiros, v. 86).
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